Eis que a página trágica da vida se escreve
Sozinha com suas mãos de sangue.
É, velho Nietzsche... eu não escaparia
de tua profunda e tosca profecia...
Eu não seria só superfície
Mas, símbolo e afundaria...
O tanto mais que um piano atado aos pés.
Sim, aos pés, pois que não tenho pênis para os atar.
Sim, eu quebraria enfim a redoma, os óculos e o castelo
E veria tudo com meus olhos partidos e perdidos
Em meio a tanta ficção de cristal:
Que belo mal... Que doce nau...
que não existiu senão nos meus sonhos
que não existiu senão no fundo de uma gaveta de uma velha tia inventada...
A vida é doce por criarmos o veneno da imaginação...
E eu quero meus óculos de volta!
Minhas lentes mentirosamente coloridas...
- Não, não me empurre para o fundo...
Eu preferiria um pandeiro e boiar
Eu queria continuar a dissimular.
A mediocridade não é nada
se comparada aquele beijo - ballet - de- água.
Preferiria não saber nadar,
nunca ter visto o mar...
que parar e assistir
a tua máscara cair.
Tu eras um anjo, tua voz um violino,
teu coração o sorriso de todas as crianças.
E agora, tu és um urso cortado
com as entranhas sujas e sangrentas de fora
E isso sem o mínimo tesão,
sem qualquer sexual conotação:
O Tânatos sem Eros.
Eu me diverti, eu me diverti ...
Até aqui/ bailando nesse veludo ruborado...
Mas ontem, um pequeno diabinho
com mãos de criança derrubou a caixa:
E tudo se foi, e tudo partiu, e tudo murchou.
E em minha visão lateral:
eu não sei mais ser mal e me deixar possuir...
Eu não sei mais outra maneira de existir!
Cristina Lino do Nascimento
19/03/2012
Desenho: Cristina Lino 10/10/17